Trabalhadores de aplicativos ganham quase o mesmo que outros, mas trabalham mais, aponta IBGE
Renda média mensal ficou praticamente igual em 2025, enquanto jornada de quem trabalha por apps foi 5,4 horas maior por semana
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| Vitor Serrano/BBC |
A renda média dos trabalhadores que atuam por meio de plataformas digitais praticamente se igualou à dos demais trabalhadores do setor privado no Brasil, mas com uma jornada semanal maior. Os dados são de um levantamento experimental divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4), com informações referentes ao terceiro trimestre de 2025.
Em 2025, os trabalhadores de aplicativos receberam, em média, R$ 3.147 por mês, enquanto os demais trabalhadores do setor privado tiveram rendimento médio de R$ 3.148.
A diferença chama atenção porque, em 2022, quando o IBGE iniciou a série histórica, quem trabalhava por aplicativos recebia, em média, R$ 3.115 por mês, contra R$ 2.847 entre os demais trabalhadores. Ou seja, a vantagem de renda existente no início da pesquisa praticamente desapareceu.
Entre 2022 e 2025, o rendimento dos trabalhadores de aplicativos apresentou pouca variação. Já a renda dos demais ocupados cresceu 10,6% no período.
Segundo Gustavo Geaquinto, analista do IBGE, o aumento da renda dos demais trabalhadores está relacionado, entre outros fatores, ao aquecimento do mercado de trabalho e à baixa taxa de desocupação.
No caso dos trabalhadores de aplicativos, o rendimento praticamente não apresentou ganho real no período mais recente. Segundo o analista, cerca de três quartos dos trabalhadores de plataformas estão concentrados nas categorias de motoristas de automóveis ou motocicletas, que também não registraram aumento real de renda.
Uma das possíveis explicações levantadas é o crescimento da oferta de trabalhadores nas plataformas, embora o IBGE ressalte que ainda não é possível determinar exatamente os motivos da estabilidade da renda.
Jornada maior reduz vantagem dos aplicativos
Apesar de a renda mensal ser praticamente a mesma, a diferença aparece quando o rendimento é comparado ao número de horas trabalhadas.
Os trabalhadores de aplicativos cumpriram, em média, 44,7 horas semanais em seu trabalho principal. Entre os demais trabalhadores do setor privado, a média foi de 39,3 horas.
Na prática, isso significa uma diferença de 5,4 horas por semana.
Considerando o rendimento por hora trabalhada, os trabalhadores de plataformas receberam aproximadamente R$ 16,20 por hora, enquanto os demais trabalhadores do setor privado tiveram média de R$ 18,40.
Flexibilidade é principal motivo para trabalhar por aplicativos
O levantamento do IBGE também investigou pela primeira vez os principais motivos que levam trabalhadores a utilizar plataformas digitais como fonte principal de renda.
A flexibilidade foi o motivo mais citado, mencionado por 26,8% dos trabalhadores.
Em seguida aparece a falta de outro trabalho, apontada por 24,6%. Já 20,8% afirmaram que escolheram trabalhar por aplicativos porque consideram que o rendimento é maior do que em outras ocupações.
É o caso de Pedro Ivo, de 18 anos, que começou a trabalhar com entregas por aplicativos no início deste ano, após deixar um emprego de jovem aprendiz.
Segundo ele, o salário anterior era inferior ao mínimo e não era suficiente para cobrir suas necessidades. Com as entregas, Pedro afirma que sua renda chegou a ser aproximadamente quatro vezes maior.
Número de trabalhadores de aplicativos cresce
De acordo com o IBGE, havia pelo menos 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais no terceiro trimestre de 2025.
O grupo inclui motoristas de transporte de passageiros, entregadores e comerciantes. Mais da metade, 55,3%, estava concentrada nos estados da região Sudeste.
Do total, cerca de 1,8 milhão de pessoas tinham as plataformas digitais como único trabalho ou como principal atividade profissional. O número representa 92,1% dos trabalhadores plataformizados e corresponde a um crescimento de 36,8% em relação ao levantamento realizado em 2022.
Os números foram divulgados poucos dias após manifestações de entregadores em diversas cidades do país. No dia 1º de setembro, trabalhadores participaram do chamado "breque dos apps", com reivindicações por melhores condições de trabalho e aumento nos repasses pagos pelas plataformas.
Entre os pedidos estava o estabelecimento de uma taxa mínima de R$ 10 para entregas de até quatro quilômetros, além de mudanças no projeto de lei que pretende regulamentar os direitos dos trabalhadores do setor.
