Renaturalização de rios surge como solução para enchentes em cidades brasileiras
Especialistas defendem recuperação de cursos d’água e ampliação de áreas verdes para enfrentar impactos das mudanças climáticas
As chuvas extremas e enchentes têm se tornado cada vez mais frequentes nas cidades brasileiras, intensificando desafios urbanos ligados às mudanças climáticas. Diante desse cenário, a renaturalização de rios urbanos desponta como uma das principais estratégias defendidas por especialistas para tornar os territórios mais resilientes.
A proposta consiste em recuperar e reabrir cursos d’água que foram canalizados ao longo do crescimento urbano, devolvendo características naturais aos rios e permitindo uma melhor absorção da água da chuva. Para a paisagista urbana Cecília Herzog, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), essa medida é urgente.
Segundo ela, o modelo de urbanização baseado na impermeabilização do solo — com asfalto e concreto — e na canalização de rios contribui diretamente para o aumento dos alagamentos. “A água não desaparece. Ela sempre vai escoar para áreas mais baixas e pode provocar inundações, principalmente em regiões planas”, explica.
Com menos áreas permeáveis, a água das chuvas escoa de forma mais rápida e intensa, sobrecarregando os sistemas de drenagem. A recuperação dos rios, portanto, deve vir acompanhada de uma requalificação mais ampla da paisagem urbana, com a ampliação de áreas verdes e o uso de soluções naturais de drenagem.
Nesse contexto, o solo permeável desempenha papel fundamental. Ele permite a infiltração da água, reduzindo a velocidade do escoamento e equilibrando o fluxo nos rios. Além disso, a presença de vegetação ciliar ajuda a diminuir o impacto das chuvas e contribui para a estabilidade ambiental.
Esse novo modelo já começa a ganhar espaço no Brasil. Em São Paulo, o futuro Parque Municipal do Bixiga prevê a reabertura de parte do córrego do Bixiga, além da preservação de nascentes e expansão de áreas verdes. O projeto é resultado de mais de quatro décadas de mobilização da sociedade civil e teve avanços recentes com a destinação oficial do terreno e a abertura de concurso público para definição do projeto.
No Rio de Janeiro, iniciativas semelhantes também estão em andamento. Um grupo coordenado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima estuda a requalificação do Rio Maracanã com base em soluções naturais. A proposta inclui intervenções que devolvam ao rio parte de suas características originais e aumentem a capacidade de drenagem da região.
A arquiteta e urbanista Juliana Baladelli Ribeiro, da Fundação Grupo Boticário, destaca que a renaturalização faz parte de um novo padrão de desenvolvimento urbano. Entre as soluções complementares estão telhados verdes, jardins de chuva, valetas vegetadas, bacias de retenção e ampliação da arborização.
Essas estratégias não apenas reduzem o risco de enchentes, mas também ajudam a amenizar ondas de calor, outro efeito cada vez mais presente nas cidades brasileiras.
Especialistas ressaltam, no entanto, que medidas isoladas não são suficientes. A adaptação climática exige planejamento integrado, levando em conta as características específicas de cada território.
A proposta é reconstruir a relação entre cidade e natureza, devolvendo espaços com solo vivo e vegetação nativa, capazes de desempenhar funções ecológicas essenciais. Desde pequenas intervenções até grandes projetos urbanos, a renaturalização dos rios aparece como um caminho necessário diante do avanço das mudanças climáticas.