PCC e Comando Vermelho entram na mira dos EUA e viram ponto sensível em possível encontro entre Lula e Trump
Classificação das facções como organizações terroristas internacionais preocupa governo brasileiro e pode abrir espaço para operações estrangeiras no país
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| (Foto: reprodução) |
As duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), passaram a ocupar o centro de uma tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. O tema ganhou relevância nas discussões que devem anteceder um encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente norte-americano, Donald Trump, ainda sem data confirmada.
Inicialmente prevista para ocorrer em março, a reunião entre os líderes foi adiada devido a conflitos de agenda e também ao início da guerra no Irã, que alterou prioridades diplomáticas internacionais. Apesar disso, o assunto continua sendo tratado nos bastidores e pode se tornar um dos principais pontos da pauta quando o encontro acontecer.
O motivo da preocupação está em uma iniciativa do governo norte-americano que busca classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. A medida faz parte de uma estratégia mais ampla de Washington para intensificar o combate ao tráfico internacional de drogas na América Latina.
Na prática, essa classificação permitiria aos Estados Unidos ampliar seus mecanismos legais para atuar contra essas organizações, inclusive abrindo espaço para possíveis operações fora do território norte-americano. Esse cenário preocupa o governo brasileiro, que vê a iniciativa como uma possível brecha para interferências externas em assuntos internos do país.
A proposta não é recente. Desde o ano passado, a administração Trump avalia incluir as duas facções brasileiras na lista de organizações terroristas internacionais. Nos últimos dias, no entanto, o processo avançou e há expectativa de que a decisão possa ser tomada em cerca de duas semanas.
Um precedente que alimenta as preocupações brasileiras ocorreu recentemente na Venezuela. No ano passado, cartéis de drogas venezuelanos foram classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas internacionais. Pouco tempo depois, Washington realizou uma operação militar no país que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro, acusado pelos norte-americanos de envolvimento com o tráfico internacional de drogas.
Diante desse histórico, integrantes do governo brasileiro temem que uma classificação semelhante aplicada ao PCC e ao Comando Vermelho possa criar justificativas para ações estrangeiras em território brasileiro.
Além das implicações diplomáticas, há também uma discussão jurídica sobre a classificação das facções como grupos terroristas. No Brasil, a legislação que trata do terrorismo estabelece que esse tipo de crime está relacionado a ações motivadas por razões religiosas, ideológicas, políticas ou por preconceito ou xenofobia.
Especialistas apontam que organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho não se enquadram nesses critérios, já que suas atividades são motivadas principalmente por interesses econômicos ligados ao tráfico de drogas e outras práticas ilegais.
Segundo o especialista em relações internacionais Manuel Furriela, reitor da Universidade Católica de Brasília, a caracterização de terrorismo exige elementos que normalmente não estão presentes em organizações criminosas comuns.
Ele explica que, no cenário internacional, grupos considerados terroristas geralmente possuem motivações políticas claras ou pretendem promover mudanças profundas no sistema político ou na estrutura de poder de um país. Já organizações criminosas tradicionais atuam com foco em lucro e expansão de atividades ilegais.
“Internacionalmente falando, a determinação de que certos grupos são terroristas depende também de requisitos como, por exemplo, de que esses grupos tenham viés político ou pretensões de tomada de poder para promover mudanças estruturais no país. Não é o caso de organizações criminosas comuns, que praticam crimes para obter ganhos econômicos”, afirmou.
Com a possibilidade de a decisão norte-americana avançar, o governo brasileiro iniciou movimentações diplomáticas para tentar evitar que a classificação seja oficializada.
No último domingo (8), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, conversou por telefone com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Durante o diálogo, o chanceler brasileiro apresentou a posição do governo e tentou convencer o governo norte-americano a reconsiderar a medida.
Até o momento, não está confirmado se o tema será formalmente discutido no encontro entre Lula e Trump, que deve acontecer em Washington nos próximos meses. O Itamaraty tem tratado as negociações relacionadas à reunião com discrição, evitando comentar detalhes das conversas preparatórias.
Mesmo assim, analistas políticos avaliam que o assunto dificilmente ficará de fora das discussões entre os dois presidentes, já que o combate ao crime organizado transnacional tem ganhado cada vez mais espaço na agenda de segurança dos Estados Unidos.
Para o especialista em risco político Eduardo Galvão, há grandes chances de que o tema surja durante o encontro entre os líderes.
Segundo ele, o combate ao narcotráfico internacional se tornou uma prioridade estratégica para Washington, o que aumenta a probabilidade de que a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas seja levantada nas conversas bilaterais.
Galvão afirma ainda que o Brasil tende a defender uma abordagem baseada na cooperação internacional, evitando aceitar decisões unilaterais que possam afetar sua soberania.
Em fevereiro, o próprio presidente Lula já havia mencionado propostas para ampliar o combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. Na ocasião, o presidente brasileiro indicou que o tema seria tratado diretamente com o governo norte-americano durante o encontro com Trump.
Enquanto a reunião entre os dois líderes não acontece, a possível classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais continua gerando debates diplomáticos, jurídicos e políticos — e pode redefinir a forma como o crime organizado brasileiro é tratado no cenário internacional.
